El Camino — A Breaking Bad Movie(2019) - Marcel Trindade


Em duas horas, Vince Gilligan te traz de volta ao ponto de partida e além. O filme opera e se constrói como um novo episódio da série original. Isso transparece na cinematografia, com os mesmos recursos econômicos mas extremamente criativos que Gilligan e companhia aplicam em ambas as séries. Aaron Paul continua entregando Jesse de forma muito verdadeira e impactante. Fisicamente existe uma distância de 6 anos entre as produções, então alguns detalhes nesse sentido precisam ser ignorados (principalmente com forma física de Todd, que é completamente diferente hoje de sua performance em 2013).

A abertura do filme restabelece os acontecimentos ao mesmo tempo em que nos oferece o conforto de reencontrar Skinny Pete e Badger. Charles Baker faz valer cada segundo em tela na pele do personagem e nos confortando sobre o destino dos dois junkies que tantas vezes serviram como alívio cômico, tanto quanto pivôs importantes nas transformações de Jesse. Eles são o ponto de partida de Jesse em El Camino. E é bonito que eles sejam os primeiros que Jesse procura, porque infelizmente, eles são os únicos em que Jesse pode confiar. E por sorte, eles não desapontam.

A partir daí, Jesse tem uma jornada a seguir, com um destino claro, elucidado por Mike na cena de abertura do filme: um flashback dos dois à beira do lago, em uma cena que evocava um dos melhores momentos da relação entre os dois durante a série. Se Walter White foi um pai severo e injusto com Jesse, Mike era uma mãe carinhosa e protetora. Com o Alaska como destino, Jesse sabe pra onde deve ir e como, exceto por um detalhe: o que ele precisa pra isso.

E é aqui que acho que Vince Gilligan, depois de passar quase 15 anos dentro desse universo se tornou um mestre em contar as histórias desses personagens. Ele condensa em duas horas o presente de Jesse e expande o passado recente (em lacunas que nunca havíamos nem sonhado existirem) de maneira extremamente competente e coerente.

Sem tentar entregar muito a respeito do filme, nós entendemos a relação de Jesse com seus captores, e como ele foi manipulado a se entregar àquela situação. Entendemos as escolhas que ele fez e como ele percebe seu caminho até aqui. E isso tudo nos faz entender as ações dele em El Camino para chegar onde precisa.

Cada ponto de decisão da história é pontuado por algum momento do passado, em que Jesse aprendeu uma lição com alguém que passou pela vida dele. Nesses momentos temos de volta Mike, Walter e Jane. Ed (Robert Forster) e Old Joe (Larry Hankin), dois dos meus personagens preferidos na série. Esses encontros funcionam como um ritual de passagem, nos dando uma chance de dizer adeus a eles de forma definitiva agora, como não pudemos em Breaking Bad.

El Camino não é uma história de redenção. Jesse já pagou seus pecados diversas vezes ao longo de Breaking Bad. E esse desenvolvimento longo é o que permite que essa narrativa seja concisa dessa forma. Não precisamos vê-lo sobre outra ótica. Sabemos exatamente onde ele está e o que ele precisa desde o primeiro momento em que o reencontramos. O caminho do título, mais do que o modelo do carro que lhe permitiu a fuga, é justamente esse capítulo curto que oferece um alívio mais adequado à história de Jesse Pinkman.



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